[ 25.03.2008 ]
É estranho que o mundo silencie, breve e triste, e que em minha boca fechada as palavras batam asas, angústia de dizer, e o corpo se agite, animal faminto. Tu permaneces, acima das horas e sobre os dias, como se horas e dias não houvessem, como se o tempo fosse um besouro enredado em meus cabelos e teus dedos fossem sua improvável salvação. Não me comove a chuva, ou a beleza do silêncio. Sou toda um esgar contido, um pequeno frêmito de superfície onde nas profundezas desmoronam cada um dos meus degraus. Esqueço teus olhos. Esqueço tua pele. Esqueço o cheiro que só existe em certas partes do teu corpo. Esqueço de mim, um tanto. Morro, um tanto. Então escrevo para contar àquela de mim do que me compus. E escrevo de novo para lembrar a ti do que me fizeste.
[ 18.02.2008 ]
E então há um lugar para onde vão os sonhos que a gente desacredita, onde moram os anéis que perdemos, os brincos descasados, o pé de meia preferido, o batom engolido pela bolsa. Há um lugar, um sumidouro, para onde são tragados os sorrisos que não voltam, o cheiro do cabelo, um colarinho manchado, o perfume na manga do vestido, teu nome no bilhete, um gosto de vinho grudado na língua. Ficam lá, suspensos numa órbita improvável e inacessível, ao som de três ou quatro frases para sempre repetidas que a gente procura esquecer. E um dia esquece.
[ 29.11.2007 ]
Não que eu te ame assim de corpo inteiro, assim até por entre os intervalos dos dedos, por debaixo da carne, impregnada e torpe, embebida e infestada como quem acha em si um fundamento outro alheio à própria composição, um esqueleto do vento que sopra do próprio hálito. Não que eu te ame, nessas coisas tolas e miúdas, ínfimas e medíocres, ordinárias e despiciendas que enchem os dias, preenchem horas, desperdiçam anos, como o modo que teus dedos mexem pontuando as tuas frases, ou como variam os intervalos dos teus piscares de olhos conforme o assunto de que tratas, conforme teu entusiasmo, conforme a intensidade da luz. Não que eu te ame, nas minimidades e pequenas tragédias, no burilar do tempo, na suspensão triste que permeia as contrariedades despercebidas, os resíduos de fracasso que se agregam à memória dos dias. Não que eu te ame, não.
[ 05.10.2007 ]
Dá-me tua mão, pássaro e lâmina, sobre meus olhos escuro e medo, sobre minha pele rastro d’água, sobre meus seios ninho e animal faminto. Dá-me tua mão, entre meus lábios, vão da gengiva, fio dos dentes saliva e carícia, entre meus cabelos, emaranhado novelo, afago e rédea, arreios, seguro sobre meu dorso, jugo aflito e pleno. Dá-me tua mão, extremadura da carne, serpente e visgo, pelas frestas, ao fundo, lava quente da terra, em sobrevôo leve, pela mansidão os cimos mais frios. Dá-me tua mão, ao redor do pescoço, na medida da cintura, um pouco acima dos joelhos, dedos em busca de um perfume perdido, temperatura improvável. Dá-me tua mão, sossego e resgate, lança e laço, tua mão de morte, de parto, de flagelo, de encanto, dá-me a tua mão de flor e canela, de gosto amargo e encontro, desespero e descanso.
[ 27.08.2007 ]
O mundo em silêncio e, em algum lugar, tua carne ainda ocupa o centro de mim, teu nome se reveza entre meus olhos e minha boca, sem que eu saiba que forma ele finalmente terá. Tem garras, o teu nome. Tem também um sumo que arde quando escala a garganta e me põe essa dor paralisante nas mãos. O pior em cada coisa é não saber se ensurdeceste à minha voz, o pior em tudo é pressentir que estás desertando de mim e que tudo seca, tudo murcha e se despetala em ausência. Sou o retrato bruto da dor, aqui posta de braços abertos à espera dos teus olhos. Sou eu mesma a dor refundada, delicadamente urdida sobre uma frágil tecitura de memória, imóvel e dócil, como só a tristeza pode compor ao corpo. Espero ínfima, mansa e imolada inseta na teia pela tua fome, ou teu abandono.
[ 07.08.2007 ]
Há em meu corpo calcinado o mapa de uma terra distante em que nem mil chuvas poderão fazer voltar a correr os rios que morreram ainda dentro dos teus olhos. Tenho em mim areia e fogo pisoteados pelo tempo e em meus cabelos uma vaga que nasceu junto do mais antigo mar. Não me olhe só com os olhos como se tuas mãos não fossem dignas do meu corpo. Toma-me nos braços tal qual um imenso barco, navega-me oceano e vento, livra-me das pedras, naufraga-me e resgata-me, invade minha boca, enfeita-me de algas, açoita-me em tempestade e raios, estende-me em vela alva, afoga-me e traz-me à tona, lúcida, rútila, aquática.
[ 21.06.2007 ]
Aviso.
A Regina, da
Delas Web Radio, de BH/MG, avisa que
foi transferido para 3ª feira, 26, às 11 da manhã, no Blog Tracks, o programa sobre blogs com o
Não Discuto. Vão falar sobre o blog e tocar músicas que o blogueiro (no caso euzinha) curte.
Semana que vem eu lembro vocês. :)