[ 24.02.2005 ]
Sou de escuros e de tudo o que mora pequeno no umbigo das coisas, do que incrusta só e miúdo nas reentrâncias discretas, de passagens secretas, do que há de entreaberto e escuso. Sou de mudez e quietudes, de bordados e agulhas, sangue em gota, língua vermelha e pensamentos espirais e só me encontro se me resumo rubra e ínfima onde só cabem vestígios, se raspo meu olhar dos vidros, se resgato minhas mãos das teias.
[ 23.02.2005 ]

Vou desnudando em palavras minhas intersecções, vou te dando a conhecer meus paradoxos, meus métodos pouco ortodoxos, meus plexos, meus senões. Vou engendrando um esculpir de mim mesma, transparências das minhas abstratas aberrações do de dentro e vou te oferecendo aos olhos, cuidadosa e mansa, minhas maldades e meandros, minhas fendas e escafandros, meus gostos incomuns. Para ti faço versos submersos que escapam pelo avesso e encontram no cristal uma forma revolta de carne vibrando e pedem num sussurro que encontres teu próprio rosto no espelho do fundo.
[ 22.02.2005 ]

Meu corpo estranha teu corpo como se nunca nos tivéssemos pertencido. Não restam pontes por onde as impressões das tuas mãos ou das minhas possam regressar para sentir relevos, imitar gestos, ganhar textura e calor. O que nos prendia perdeu-se, despencou num abismo, esvaiu-se da vida. Meu corpo não reconhece teu corpo, não estão mais tatuados nele a memória do teu cheiro, o gosto dos teus sucos, a nossa secreta intimidade. Restamos completos estranhos em corpos de vidro na assepsia civilizada de mais nada.
[ 21.02.2005 ]
Eu não gosto de despir casas, desfazer ninhos. Não desmonto móveis,

nem esvazio armários ou encaixoto livros. Não acondiciono louças, não empacoto discos, não embalo objetos. Tenho medo da vingança das coisas. Tenho medo dos dias que ficaram perdidos atrás dos armários, medo que eles me agarrem pelo pescoço e perguntem porque não os resgatei. Tenho medo de ver seus rostos negros, seus dentes finos arreganhados nas bocas cheias de um tempo esquecido. Não sei desconstruir história e temo que ela me arranque as tripas, me vire do avesso, me leve de volta à rudeza das impossibilidades, ao gosto metálico dos vazios. Temo a perversa sinfonia do eco entre paredes que não cercam mais nada, réquiem da profanação do que vivi naquele território. Prefiro o discreto abandono dos despojos.
[ 18.02.2005 ]
Calcei teus sapatos, como disse que jamais desejaria.
Calcei teus sapatos e te convidei para dançar, mas dancei sozinha. Sabia que a música era só minha, ainda assim, calcei teus sapatos e inventei melodia, como disse que não mais faria.
Calcei teus sapatos e me fiz menina que inventa passo, que dança solta, que desatina, calcei teus sapatos e dancei leve e linda como imaginei que não mais seria.
Calcei teus sapatos e estendi os braços mesmo sabendo que os teus não estenderias, calcei teus sapatos e rodopiei como pensei que não mais saberia.
Calcei teus sapatos e esperei teu abraço que faria de mim a bailarina que sonhei, mas tu não a querias.
Então tirei teus sapatos e segui descalça, como sempre soube que seguiria.
ORELHA
Escrever com essa sensibilidade já é uma arte. Nem precisava mais. Mas, Ticcia consegue ainda conjugar palavra e imagem. É um encher de olhos. Um transbordar de sentidos. E o ritmo com que ela descreve as sensações, em cores e texturas, faz com que a gente use todos os sentidos para mergulhar em cada frase de encantada beleza. Cada vez que entro aqui e leio o que a Ticcia escreve penso que o nome que ela escolheu para o seu blog não poderia ser mais perfeito. Não dá mesmo
pra discutir. Só sentir.
Cláudia Letti
[ 17.02.2005 ]
Eu - ensaiando braços sempre em prestes, sempre em dispostos, sempre em quases - invento teu corpo de renitência e cansaço, partidas e claros.
Eu - entrevando o tanto que tinha aprendido, vomitando dias sorvidos num gole - espero que tu te detenhas antes de fechar a porta.
Eu - resumindo promessa, prenhez, enigma, posta restante - resto em cacos.
[ 16.02.2005 ]
De certo tu me dirias que a mim não me falta nada. De certo. Também de certo teus olhos dariam as mãos aos meus, já que teus gestos sempre foram inclusos em teu olhar, num afago que seria piedade e, por isso, também um soco no de mim que não comportaria revide.

Ainda que tuas mãos afagassem o corte, roçassem ásperas a ferida viva, eu teria que suportar, pois teus olhos me estenderiam a imobilidade do teu corpo em piedade triste e, de quebra, me presenteariam com a miudez dos insuficientes, a mendicância dos coitados, a mediocridade dos ordinários, mesmo que a mim seguisses repetindo que não me falta nada. De certo então tu me alcançarias a esmola dos clichês, minha importância na tua vida, coisas boas que vivemos, lembranças maravilhosas que terás de mim e eu te diria que comigo será igual. Só que eu não pretenderia que acreditasses em mim.
[ 15.02.2005 ]
ORELHA
Muy Queridíssima Tic-Tic,
desculpe esse seu miserável e atrasado ratapulgo, não deu para fazer aquela orelha mas aqui está um pequeno pâncreas. (fase 359c-2 completa!!!)
Uma viagem ao Não Discuto é um safari da alma. Aprendemos que escrever é correr risco. Correr o risco da tinta esferográfica sobre o papel. Ou o batucar das teclas que reverberam como tambores que chamam para dentro do útero da África de papel celofane e orquídeas do tamanho de casas, casas do tamanho de joaninhas, joaninhas sem tamanho algum,
multidimensionais.
Uma viagem ao Não Discuto é um transatlântico de paixões, uma canoa de sonhos ancestrais, é uma menina sonolenta flutuando numa barrica em direção às Cataratas do Iguaçu. É ser carregado por libélulas ébrias pelos pampas gaúchos redecorados com girassóis sob um céu kandinskianamente abóbora. Uma viagem ao Não Discuto é um mergulho em uma piscina de Tiramissu onde lúbricos estames o arrastam para o fundo gelado de mascarpone e bolachas champanhe. Uma viagem ao Não Discuto é o risco de encontrar dentro das gavetinhas do espírito o pequenino frasco de perfume e ver dele saltar o tigre curioso e faminto.
Ao embrenharmos na Ticciolândia selvagem podemos perder a alma mas retornamos sempre levitando com um sorriso maroto. Há quem creia que valha a pena correr o risco. Eu não discuto.
Ratapulgo Escarlate
Deitada a teu lado, eu já não estava mais ali. Meu corpo ganhara leveza e transparência próprias das memórias e nem peso mais eu fazia sobre o colchão. Tu me olhavas através, não como quem vê, mas como quem recorda. Nada mais dali valia ou tinha cor. A distância já nos tinha imposto a impressão póstuma dos sentidos. Sempre foste assim, apegado às antecedências. Nunca entenderei se o que me levava para longe antes mesmo de partir era tua necessidade de te apoderar do porvir ou uma intolerância absoluta aos transbordamentos. Também sinto assim, uma premente vontade de passar pelo sofrimento num trem que não pára no final da linha, mas ao contrário de ti, não escolhi ser trilho. Tentava gritar na mudez do corpo um suplicar de coragem. Tentava pedir-te ação na imobilidade rútila dos olhos. Teu rosto largo, tua pele triste, tuas minúsculas pupilas me contavam dos temores fossilizantes enquanto eu te abria meu peito em pétala, fazia-me acasalamento e núpcias, estendia a alma em braços e pedia para me impedires de partir. E tu nada disseste, apesar das tuas mãos confessarem tua fome das minhas carnes, ao pesar de uns olhos de tristeza infinita, a pesar teu corpo solidez sobre o meu frêmito e ânsia.
[ 14.02.2005 ]
Não sabia como abrir as portas da casa nova. Depois de tanto tempo escolhendo esse novo canto, tinha gostado muito do trabalho lindo que a
Rossana fez, mas tinha medo de entrar e os móveis não me receberem de braços abertos, de estranhar o cheiro da mobília, das paredes recém pintadas, o piso escorregadio sem os trilhos das pegadas feitas e refeitas. Um certo receio de faltar a sensação de lar.
Resolvi então pedir ao meus amigos que me esperassem aqui, deitados no sofá, pernas sobre a mesa de centro, fazendo um café na cozinha, remexendo os papéis sobre a mesa (que está uma bagunça como sempre).
Alguns já estão aqui. Chegaram cedo e puseram flores nos vasos, compraram lençóis novos, perfumaram as cortinas. Outros, disseram que vão se atrasar, e que é pra irmos nos divertindo que logo, logo eles chegam.
Quando vi as surpresas maravilhosas que me fizeram compreendi que a casa da gente é onde encontramos as pessoas que amamos.
Espero poder encontrá-los todos aqui. Obrigada por terem vindo.
Peço àqueles que têm blog ou site, que se puderem fazer a gentileza de divulgarem a reabertura do ND, que o façam. Depois de mais de um mês off line, precisamos de ajuda para avisar que estamos de volta. :D Beijos :*
ORELHAS
Os cabelos estão vermelhos como o pôr do sol num dia quente. Os olhos enormes, com cílios imensos, emoldurados pelas sobrancelhas arqueadas iguais as do pai. Dentes grandes, bem branquinhos, que chamam atenção quando ela sorri. O pescoço longo vai descendo de mansinho até encontrar os ombros aredondados que lembram maçãs. Os braços são fortes e as mãos leves, de unhas bem feitas. Tem os seios fartos e a cintura fina, onde o prenúncio do outono se insinua pelo umbigo e vai abrindo passagem até o ventre. Uma planicie a ser desbravada. A bunda tem carne macia e as pernas são torneadas. Ela não gosta dos pés, mas eles refletem a personalidade da dona, cheio de protuberâncias e recôncavos, que ora mostram, ora escondem.
Mas não é o mulherão que me toca o coração. É a menina. A menina que cresceu rápido demais, que foi sufucando bonecas para brincar com letras e dali tirar o sustento do estômago e da alma. A menina que saiu pro mundo ainda criança e foi buscar o seu lugar pagando o preço que a vida exigiu. Que sabe rir em público da desgraça e a chorar escondidinha, no cantinho, pra ninguém ver. A menina que soluça alto de desespero e não desiste, por que está descobrindo o seu valor. Que canta, dança e sapateia, mas vai lá e faz o que tem vontade para ser feliz. A menina que não tem vergonha de pedir colo e perguntar como se faz.
Mas não é só a menina que entrou no coração. É a velha. A velha que conhece o segredo do mundo e divide com você. Que ri de escárnio dos estúpidos e de ternura pelos amados. A velha que conheceu o amor, a entrega, a dor, o abandono, a traição, a felicidade, a rejeição, a culpa, a esperança, o recomeço. A velha que aprendeu qual é o seu lugar e não senta em outro, nem adianta oferecer. A velha que cura as próprias feridas e ajuda os outros a lamber as suas. Que não tripudia sobre os mortos e não se ajoelha diante dos santos. A velha que te oferece colo e te ensina como se faz.
E agora a casa nova que é velha. A casa de menina boneca. O castelo da velha bruxa. Não discuto, diz ela. Mentira deslavada! Ela discute sim. Tudo. Desde o preço da escova de dentes até o designer da jóia. É um inferno! Vai ver e depois me diz, se eu não tenho razão.

Rô
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A tentação de chamar a Ticcia de menina é enorme. Ela tem cara de menina. Ânimo de menina. Coragem de menina. Aquela felicidade, aquele entusiasmo que só os muito fresquinhos, os recém-saídos do ovo os que ainda não sofreram, os que mal viveram podem ter. Mas aí, você lê a Ticcia. E entende, na primeira frase, ali está uma mulher. Com dúvidas, dores, alegrias e olhares que só uma grande mulher pode ter. Uma mulher que já viveu, que já caiu e levantou, que já amou e odiou em intensidade e que transformou cada uma de suas experiências em arte. Eu amo a arte da Ticci. Amo o que ela diz. Amo o que ela não diz. Bebo cada palavrinha dela com assombro, com admiração, com loucura, com “ahs” e “ohs”. Ah, tá bom e com um pouquinho de inveja, não tenho vergonha de confessar. Mas precisei conhecer a Ticcia pra entender que, ao contrário doutros escritores, sua força está, exatamente, na sua cara de menina. Na sua coragem de menina. Nesse peito aberto de viver de novo, e de novo. Ticci não é a escritora recolhida em seu quarto, à meia luz imaginando na segurança do edredom enrolado nas costas. Ticci está vivendo, metendo a mão no barro, dando a cara a tapa. E contando para cada um de nós, seus súditos, que nada dá sempre certo. Que nada dá sempre errado. E que se ela encontra a poesia a cada passo, a beleza em cada gesto, a luz em cada nicho, nós podemos também. Ou não?
Fal
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"O que é blog?", ela perguntou. "Blog é o que tu quiseres", ele explicou, "pode ser diário íntimo, pode ser guia de viagem, pode ser galeria de fotos, pode ser discussão acalorada..." Ela se ajeitou na cadeira, pensou um pouco. "Íntimo eu gosto. Viagem também. Imagens, não podem faltar. Mas discussão não." "Como não? Opinião, debate, interatividade, faz parte." "Mas pode não fazer", ela retrucou com ar natural, "tem coisas que não são discutíveis." O sorriso era uma provocação: "Tais como?" Nova ajeitada na cadeira, nova pausa reflexiva. "Destino. Não se discute, vive-se." Impossível não perguntar: "E tu acreditas em destino?" Risadinha, ligeiro levantar de sobrancelha. "Claro que não. Mas não discuto com ele." Ele sorriu, encantado com o paradoxo. Puxou a caneta e escreveu no guardanapo, com a naturalidade de quem bloga: "Não discuto."
Nemo Nox
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Sou apaixonado pela escrita da Ticcia. Talvez minha opinião não conte muito, posto que opinião de apaixonado é tendenciosa por natureza. Ah, não importa! É algo mais ou menos assim a minha relação com o texto dela: leio em flagrante ritual, sorvendo a mistura das palavras, porque nelas reside uma química de sedução, daquelas que se encontram nos escritores que tem amor pela língua, por sua língua. Esse é o caso da Ticcia. Os textos que conhecemos dela são curtos, creio eu pela natureza do veículo em que escreve, afinal a internet veio sintetizar o fetiche da velocidade, da brevidade que nos circunda. Mas, sou capaz de apostar que tanto desvelo ao escrever é índice de romancista de fôlego. É esperar para ver. Isso é uma provocação explícita de um leitor-fã de carteirinha.
Beijo,
Arquimimo
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Pensei em escrever como ela é talentosa, mas isso a gente nem discute. Leio a Ticcia desde quando blog era apenas um olá do seu estômago. Faz tempo. Uns 15 anos. Ela me mandava poemas pelo correio. Demorava mais de semana pra chegar. Você consegue não ler a Ticcia por uma semana? Pois é. Enjoy.
Angie