[ 30.03.2005 ]
Porque já não quero asas, o mundo do ar, das infinitas suspensões e interregnos. Porque preciso de terra e formigas, umidade de chão e charco, folhas caídas, momentos fecundos. Porque em mim estanca-se o tempo de aguadas, as correntes se invertem, os barcos ancoram e se faz hora de remendar redes, pés descalços no agora. Porque preciso reinventar o sonho, costurá-lo miúdo em princípio, alinhavar pequeno, bordar no início, começar de dentro a nova rosa dos ventos.
[ 22.03.2005 ]
Porque todas as vezes que vieste, abria-se um sorriso no dia e o tempo era ao revés e manso e branco e tudo mais já não envelhecia e algo de insano permeava as coisas e meus cabelos eram novamente longos e tuas mãos eram outra vez macias e eu te olhava nos olhos sem precisar dizer que te amava e tu entendias.
Porque todas as vezes que me amaste, rompiam-se os derradeiros do mundo, era eu uma menina bêbada da mais louca alegria e tu me abraçavas como quem acarinha asas de um pássaro mudo e eu te beijava a boca como quem se agarra tonta a um infinito de tudo.
Porque todas as vezes que voltaste, fenecia a razão embotada na memória dos sentidos, eu te dizia mil vezes que a vida muita em mim sempre fora tua e que de modo algum deverias nos ter perdido.
Imagem Jorge da Fonseca
[ 21.03.2005 ]

No corpo um desassossego de formigas, prenúncio de chuva, asas novas, atordoamento e tempo quente. Permeia o dia uma promessa de vésperas e os olhos do mundo arregalados sobre os ombros espiam os medos. Dentro de mim há uma estranha composição de pecados, uma secreta mistura de transgressões. Movo-me cautelosa como quem teme despertar uma fúria terrível, como quem é responsável pela frágil ordem das coisas e peço silêncio aos sobressaltos do peito. O instante corre seu fio e a teia do tempo tremula efêmera na fresta da perfeição.
[ 18.03.2005 ]

Vem às mãos a irresistível ânsia de buscar sob as roupas, pelas aberturas dos tecidos, o calor da tua pele, a textura dos teus relevos, a virilidade do teu desejo flagrante e então já não basta saber de provocações e vontades, da saliva do teu beijo, do cheiro do teu pescoço, preciso em urgência e desespero das tuas pulsações e desejos, do que rebenta e arrebata. Sugo teu gosto ácido, afago lascivo da língua, gota rútila de sal e afundo a adaga que separa as pernas, que procura as frestas, que embrenha em pêlos, que lambuza os dedos e aflora a fome de mais de ti em minha boca, mais do teu cheiro doce em minhas narinas, mais da tua ardência latejante em meus lábios, mais do teu suco em minha garganta. Devoro louca teus líquidos, gemidos, suspiros e procuro o encontro mais fundo, a posse extremada, minha umidade na intumescência das tuas formas, a força tesa do teu sexo no aveludado do meu ventre. Vomito em tua boca a respiração aflita e ondulante no debater dos corpos, ordeno em grito abafado sob o teu peso que me rasgues, invadas, na dor suplicante das fendas, na marca funda das unhas, nos mamilos rijos entre teus dentes, na carne febril da fêmea que recebe aberta teu gozo quente.
Para a Mara
[ 16.03.2005 ]
Porque eu te amo num desesperado recomeço de agruras, numa plenitude de maré incerta e vazante, eu te digo que a mim não bastam os anos, as palavras benditas, não basta a língua tão longe das feridas ou um naufrágio a muitos metros da superfície. Porque eu te amo pequena e límpida como água na concha das mãos, pousada sobre teus lábios, cônscia de tua sede, eu sei que tu me inventaste os prumos, os rumos, as vertentes, tu me puseste os olhos, tu me fundaste o ventre. Porque eu te amo em estilhaços e rompantes, nos rasgos da carne, no roçar dos dentes, no ar pouco entre as bocas urgentes, na aflição dos pecados, eu te quero no descanso dos braços, no enrodilhar desarcertado das pernas e num tanto de insanidade para compensar a espera. Porque eu te amo imensa e lasciva, fêmea, vulva, viva, impregnada dos teus sumos, grande e alta como me fazem teus gestos, como me dizem teus olhos, como me ensina teu corpo, eu sou tantas, sou de mim a fome, a insaciedade premente, a felicidade absurda de me encontrar inteira dentro do teu peito e de, por isso, me saber para sempre incompleta. Porque te amo, tanto, e mais, e contudo, que te amo e emudeço aos gritos do sol fugidio no teu rosto.
Egon Schiele
Estamos de aniversário. Eu, 32; o Não Discuto, 3.
Bom ver as nuvens expressionistas, a estrada livre, o horizonte amplo, o céu de começo de dia e saber que, mesmo sem ver, vocês estão ao meu lado.
[ 11.03.2005 ]
O dia me recebe com os cães amarelos das réstias de sol lambendo meus pés sobre a cama e eu me escondo da brutalidade da rua entre os lençóis mornos que recendem a sono. Em mim há um desassossegar de galhos, na vida que apronta o estirar de asas mas teme a altura em ameaça de vertigem.
Lucien Freud - Girl with White Dog
[ 09.03.2005 ]
Me estendes um rio de seixos e troncos, um rio que rola, que geme, que crepita. Me estendes um rio que rumina, um rio de leito estreito e raso, um rio de descaso. Move-se a afogada nas pedras, abrem-se as guelras súplices, arrastam-se as correntes nas margens, debatem-se os peixes na areia e o sol arde, e as nuvens passam, e o rio corre para o nada.
[ 07.03.2005 ]
Nada há em outros que seja como o convite que me fazes. Nada que seja como esse solfejar louco de nervos, como esse rasgo alucinado das carnes, como esse grito insano do corpo. Tu acenas improvável e eu me esvaio em contentamentos e urgências, encravo felicidade nos olhos e visto razão nenhuma, descalço a ordinariedade do mundo e volto à amplidão desmedida dos teus olhos para me encontrar linda e nua, braços erguidos, seios fartos, pontas dos pés, pernas abertas, lábios úmidos, ninho em fogo.
Uma tristeza de alma em véspera veio morar comigo, uma contenção latejante e incômoda, uma nesga de vida em abscesso e sou braços em concha, boca em ânsia, pernas em arco para me estender além do hoje. Há um silêncio de esgares implícitos emprenhando o mundo.
[ 04.03.2005 ]
Descobri a cor das minhas paredes raspando as unhas no cimento, esfregando o corpo contra os tijolos, mastigando o reboco, caiando os olhos e lixando a língua. A consciência do tom vem mais autêntica da concretude do tato que do espelho da retina e enxerga melhor quem se apodera das coisas em vez de contemplá-las. É preciso engolir para conhecer o gosto, ainda que depois vomite-se o incompatível. Não peça parcimônia a quem coteja a insanidade. Tenho intolerância aos pastéis.
[ 02.03.2005 ]
BOAS NOTÍCCIAS
O
NÃO DISCUTO está entre o blogs da Semana do
Inagaki.
Obrigada, querido.
[ 01.03.2005 ]
Em meu corpo subjazem teus gestos, a força das tuas mãos, a pressão dos teus dedos. Implícitas em meus sentidos tuas impressões, odores, tons em cárcere redoma, composição não nascida. Te tenho em mim como promessa exaurida e novamente prenhe, um transbordamento em prestes que se contém para rebentar por dentro e esvair. Te guardo em mim para te reinventar cada vez que te aprendo, cada vez que tu me ensinas a segurar tua mão pela primeira vez, cada vez que sorris o sorriso que eu nunca vi.