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[ 14.02.2005 ]



Não sabia como abrir as portas da casa nova. Depois de tanto tempo escolhendo esse novo canto, tinha gostado muito do trabalho lindo que a Rossana fez, mas tinha medo de entrar e os móveis não me receberem de braços abertos, de estranhar o cheiro da mobília, das paredes recém pintadas, o piso escorregadio sem os trilhos das pegadas feitas e refeitas. Um certo receio de faltar a sensação de lar.

Resolvi então pedir ao meus amigos que me esperassem aqui, deitados no sofá, pernas sobre a mesa de centro, fazendo um café na cozinha, remexendo os papéis sobre a mesa (que está uma bagunça como sempre).

Alguns já estão aqui. Chegaram cedo e puseram flores nos vasos, compraram lençóis novos, perfumaram as cortinas. Outros, disseram que vão se atrasar, e que é pra irmos nos divertindo que logo, logo eles chegam.

Quando vi as surpresas maravilhosas que me fizeram compreendi que a casa da gente é onde encontramos as pessoas que amamos.

Espero poder encontrá-los todos aqui. Obrigada por terem vindo.



Peço àqueles que têm blog ou site, que se puderem fazer a gentileza de divulgarem a reabertura do ND, que o façam. Depois de mais de um mês off line, precisamos de ajuda para avisar que estamos de volta. :D Beijos :*



Escrito por Ticcia às 12:15 de 14.02.2005 26 comentários

ORELHAS

Os cabelos estão vermelhos como o pôr do sol num dia quente. Os olhos enormes, com cílios imensos, emoldurados pelas sobrancelhas arqueadas iguais as do pai. Dentes grandes, bem branquinhos, que chamam atenção quando ela sorri. O pescoço longo vai descendo de mansinho até encontrar os ombros aredondados que lembram maçãs. Os braços são fortes e as mãos leves, de unhas bem feitas. Tem os seios fartos e a cintura fina, onde o prenúncio do outono se insinua pelo umbigo e vai abrindo passagem até o ventre. Uma planicie a ser desbravada. A bunda tem carne macia e as pernas são torneadas. Ela não gosta dos pés, mas eles refletem a personalidade da dona, cheio de protuberâncias e recôncavos, que ora mostram, ora escondem.

Mas não é o mulherão que me toca o coração. É a menina. A menina que cresceu rápido demais, que foi sufucando bonecas para brincar com letras e dali tirar o sustento do estômago e da alma. A menina que saiu pro mundo ainda criança e foi buscar o seu lugar pagando o preço que a vida exigiu. Que sabe rir em público da desgraça e a chorar escondidinha, no cantinho, pra ninguém ver. A menina que soluça alto de desespero e não desiste, por que está descobrindo o seu valor. Que canta, dança e sapateia, mas vai lá e faz o que tem vontade para ser feliz. A menina que não tem vergonha de pedir colo e perguntar como se faz.

Mas não é só a menina que entrou no coração. É a velha. A velha que conhece o segredo do mundo e divide com você. Que ri de escárnio dos estúpidos e de ternura pelos amados. A velha que conheceu o amor, a entrega, a dor, o abandono, a traição, a felicidade, a rejeição, a culpa, a esperança, o recomeço. A velha que aprendeu qual é o seu lugar e não senta em outro, nem adianta oferecer. A velha que cura as próprias feridas e ajuda os outros a lamber as suas. Que não tripudia sobre os mortos e não se ajoelha diante dos santos. A velha que te oferece colo e te ensina como se faz.

E agora a casa nova que é velha. A casa de menina boneca. O castelo da velha bruxa. Não discuto, diz ela. Mentira deslavada! Ela discute sim. Tudo. Desde o preço da escova de dentes até o designer da jóia. É um inferno! Vai ver e depois me diz, se eu não tenho razão.






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A tentação de chamar a Ticcia de menina é enorme. Ela tem cara de menina. Ânimo de menina. Coragem de menina. Aquela felicidade, aquele entusiasmo que só os muito fresquinhos, os recém-saídos do ovo os que ainda não sofreram, os que mal viveram podem ter. Mas aí, você lê a Ticcia. E entende, na primeira frase, ali está uma mulher. Com dúvidas, dores, alegrias e olhares que só uma grande mulher pode ter. Uma mulher que já viveu, que já caiu e levantou, que já amou e odiou em intensidade e que transformou cada uma de suas experiências em arte. Eu amo a arte da Ticci. Amo o que ela diz. Amo o que ela não diz. Bebo cada palavrinha dela com assombro, com admiração, com loucura, com “ahs” e “ohs”. Ah, tá bom e com um pouquinho de inveja, não tenho vergonha de confessar. Mas precisei conhecer a Ticcia pra entender que, ao contrário doutros escritores, sua força está, exatamente, na sua cara de menina. Na sua coragem de menina. Nesse peito aberto de viver de novo, e de novo. Ticci não é a escritora recolhida em seu quarto, à meia luz imaginando na segurança do edredom enrolado nas costas. Ticci está vivendo, metendo a mão no barro, dando a cara a tapa. E contando para cada um de nós, seus súditos, que nada dá sempre certo. Que nada dá sempre errado. E que se ela encontra a poesia a cada passo, a beleza em cada gesto, a luz em cada nicho, nós podemos também. Ou não?



Fal


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"O que é blog?", ela perguntou. "Blog é o que tu quiseres", ele explicou, "pode ser diário íntimo, pode ser guia de viagem, pode ser galeria de fotos, pode ser discussão acalorada..." Ela se ajeitou na cadeira, pensou um pouco. "Íntimo eu gosto. Viagem também. Imagens, não podem faltar. Mas discussão não." "Como não? Opinião, debate, interatividade, faz parte." "Mas pode não fazer", ela retrucou com ar natural, "tem coisas que não são discutíveis." O sorriso era uma provocação: "Tais como?" Nova ajeitada na cadeira, nova pausa reflexiva. "Destino. Não se discute, vive-se." Impossível não perguntar: "E tu acreditas em destino?" Risadinha, ligeiro levantar de sobrancelha. "Claro que não. Mas não discuto com ele." Ele sorriu, encantado com o paradoxo. Puxou a caneta e escreveu no guardanapo, com a naturalidade de quem bloga: "Não discuto."



Nemo Nox


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Sou apaixonado pela escrita da Ticcia. Talvez minha opinião não conte muito, posto que opinião de apaixonado é tendenciosa por natureza. Ah, não importa! É algo mais ou menos assim a minha relação com o texto dela: leio em flagrante ritual, sorvendo a mistura das palavras, porque nelas reside uma química de sedução, daquelas que se encontram nos escritores que tem amor pela língua, por sua língua. Esse é o caso da Ticcia. Os textos que conhecemos dela são curtos, creio eu pela natureza do veículo em que escreve, afinal a internet veio sintetizar o fetiche da velocidade, da brevidade que nos circunda. Mas, sou capaz de apostar que tanto desvelo ao escrever é índice de romancista de fôlego. É esperar para ver. Isso é uma provocação explícita de um leitor-fã de carteirinha.

Beijo,




Arquimimo


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Pensei em escrever como ela é talentosa, mas isso a gente nem discute. Leio a Ticcia desde quando blog era apenas um olá do seu estômago. Faz tempo. Uns 15 anos. Ela me mandava poemas pelo correio. Demorava mais de semana pra chegar. Você consegue não ler a Ticcia por uma semana? Pois é. Enjoy.

Angie

Escrito por meus amigos às 12:10 de 14.02.2005 3 comentários


email, informações, arquivos, links e etc... Não discuto com o destino, o que pintar eu assino. (Leminski) Blogs Recomendados & Sites Favoritos