Deitada a teu lado, eu já não estava mais ali. Meu corpo ganhara leveza e transparência próprias das memórias e nem peso mais eu fazia sobre o colchão. Tu me olhavas através, não como quem vê, mas como quem recorda. Nada mais dali valia ou tinha cor. A distância já nos tinha imposto a impressão póstuma dos sentidos. Sempre foste assim, apegado às antecedências. Nunca entenderei se o que me levava para longe antes mesmo de partir era tua necessidade de te apoderar do porvir ou uma intolerância absoluta aos transbordamentos. Também sinto assim, uma premente vontade de passar pelo sofrimento num trem que não pára no final da linha, mas ao contrário de ti, não escolhi ser trilho. Tentava gritar na mudez do corpo um suplicar de coragem. Tentava pedir-te ação na imobilidade rútila dos olhos. Teu rosto largo, tua pele triste, tuas minúsculas pupilas me contavam dos temores fossilizantes enquanto eu te abria meu peito em pétala, fazia-me acasalamento e núpcias, estendia a alma em braços e pedia para me impedires de partir. E tu nada disseste, apesar das tuas mãos confessarem tua fome das minhas carnes, ao pesar de uns olhos de tristeza infinita, a pesar teu corpo solidez sobre o meu frêmito e ânsia.