ORELHAS
Os cabelos estão vermelhos como o pôr do sol num dia quente. Os olhos enormes, com cílios imensos, emoldurados pelas sobrancelhas arqueadas iguais as do pai. Dentes grandes, bem branquinhos, que chamam atenção quando ela sorri. O pescoço longo vai descendo de mansinho até encontrar os ombros aredondados que lembram maçãs. Os braços são fortes e as mãos leves, de unhas bem feitas. Tem os seios fartos e a cintura fina, onde o prenúncio do outono se insinua pelo umbigo e vai abrindo passagem até o ventre. Uma planicie a ser desbravada. A bunda tem carne macia e as pernas são torneadas. Ela não gosta dos pés, mas eles refletem a personalidade da dona, cheio de protuberâncias e recôncavos, que ora mostram, ora escondem.
Mas não é o mulherão que me toca o coração. É a menina. A menina que cresceu rápido demais, que foi sufucando bonecas para brincar com letras e dali tirar o sustento do estômago e da alma. A menina que saiu pro mundo ainda criança e foi buscar o seu lugar pagando o preço que a vida exigiu. Que sabe rir em público da desgraça e a chorar escondidinha, no cantinho, pra ninguém ver. A menina que soluça alto de desespero e não desiste, por que está descobrindo o seu valor. Que canta, dança e sapateia, mas vai lá e faz o que tem vontade para ser feliz. A menina que não tem vergonha de pedir colo e perguntar como se faz.
Mas não é só a menina que entrou no coração. É a velha. A velha que conhece o segredo do mundo e divide com você. Que ri de escárnio dos estúpidos e de ternura pelos amados. A velha que conheceu o amor, a entrega, a dor, o abandono, a traição, a felicidade, a rejeição, a culpa, a esperança, o recomeço. A velha que aprendeu qual é o seu lugar e não senta em outro, nem adianta oferecer. A velha que cura as próprias feridas e ajuda os outros a lamber as suas. Que não tripudia sobre os mortos e não se ajoelha diante dos santos. A velha que te oferece colo e te ensina como se faz.
E agora a casa nova que é velha. A casa de menina boneca. O castelo da velha bruxa. Não discuto, diz ela. Mentira deslavada! Ela discute sim. Tudo. Desde o preço da escova de dentes até o designer da jóia. É um inferno! Vai ver e depois me diz, se eu não tenho razão.

Rô
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A tentação de chamar a Ticcia de menina é enorme. Ela tem cara de menina. Ânimo de menina. Coragem de menina. Aquela felicidade, aquele entusiasmo que só os muito fresquinhos, os recém-saídos do ovo os que ainda não sofreram, os que mal viveram podem ter. Mas aí, você lê a Ticcia. E entende, na primeira frase, ali está uma mulher. Com dúvidas, dores, alegrias e olhares que só uma grande mulher pode ter. Uma mulher que já viveu, que já caiu e levantou, que já amou e odiou em intensidade e que transformou cada uma de suas experiências em arte. Eu amo a arte da Ticci. Amo o que ela diz. Amo o que ela não diz. Bebo cada palavrinha dela com assombro, com admiração, com loucura, com “ahs” e “ohs”. Ah, tá bom e com um pouquinho de inveja, não tenho vergonha de confessar. Mas precisei conhecer a Ticcia pra entender que, ao contrário doutros escritores, sua força está, exatamente, na sua cara de menina. Na sua coragem de menina. Nesse peito aberto de viver de novo, e de novo. Ticci não é a escritora recolhida em seu quarto, à meia luz imaginando na segurança do edredom enrolado nas costas. Ticci está vivendo, metendo a mão no barro, dando a cara a tapa. E contando para cada um de nós, seus súditos, que nada dá sempre certo. Que nada dá sempre errado. E que se ela encontra a poesia a cada passo, a beleza em cada gesto, a luz em cada nicho, nós podemos também. Ou não?
Fal
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"O que é blog?", ela perguntou. "Blog é o que tu quiseres", ele explicou, "pode ser diário íntimo, pode ser guia de viagem, pode ser galeria de fotos, pode ser discussão acalorada..." Ela se ajeitou na cadeira, pensou um pouco. "Íntimo eu gosto. Viagem também. Imagens, não podem faltar. Mas discussão não." "Como não? Opinião, debate, interatividade, faz parte." "Mas pode não fazer", ela retrucou com ar natural, "tem coisas que não são discutíveis." O sorriso era uma provocação: "Tais como?" Nova ajeitada na cadeira, nova pausa reflexiva. "Destino. Não se discute, vive-se." Impossível não perguntar: "E tu acreditas em destino?" Risadinha, ligeiro levantar de sobrancelha. "Claro que não. Mas não discuto com ele." Ele sorriu, encantado com o paradoxo. Puxou a caneta e escreveu no guardanapo, com a naturalidade de quem bloga: "Não discuto."
Nemo Nox
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Sou apaixonado pela escrita da Ticcia. Talvez minha opinião não conte muito, posto que opinião de apaixonado é tendenciosa por natureza. Ah, não importa! É algo mais ou menos assim a minha relação com o texto dela: leio em flagrante ritual, sorvendo a mistura das palavras, porque nelas reside uma química de sedução, daquelas que se encontram nos escritores que tem amor pela língua, por sua língua. Esse é o caso da Ticcia. Os textos que conhecemos dela são curtos, creio eu pela natureza do veículo em que escreve, afinal a internet veio sintetizar o fetiche da velocidade, da brevidade que nos circunda. Mas, sou capaz de apostar que tanto desvelo ao escrever é índice de romancista de fôlego. É esperar para ver. Isso é uma provocação explícita de um leitor-fã de carteirinha.
Beijo,
Arquimimo
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Pensei em escrever como ela é talentosa, mas isso a gente nem discute. Leio a Ticcia desde quando blog era apenas um olá do seu estômago. Faz tempo. Uns 15 anos. Ela me mandava poemas pelo correio. Demorava mais de semana pra chegar. Você consegue não ler a Ticcia por uma semana? Pois é. Enjoy.
Angie
Comentários:
É TUDO MEU, se é que me entendes...
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Meus queridos amigos, tão bom chegar aqui e achar vocês.
A marida se puxou duma maneira tal que eu não tenho mais como negar o nosso caso (clínico). Agora eu digo o quê pro homeril que insiste em propor um menàge? Só me resta: rapazes, ela não me divide com NINGUÉM.
Falzica, tu és uma vaca, visse? Onde se viu dizer essas coisas. Tu, logo tu que és a minha ídala, que escreve feito uma demônia, de quem eu sou a presidenta do fã clube?
Nemo, o homem do melhor blog do mundo, que intuiu como seriam nossos diálogos muito antes deles acontecerem. Precisaremos de muitos anos até esgotarmos nossos assuntos e mesmo assim duvido que isso aconteça. O que só me envaidece, claro. Nunca pensei que tu fosses agüentar uma chata de galocha como eu tanto tempo e ainda falar em voltar. :)
Mimo, tu ficaste louco. Romancista? Djo? No me hagas rier! Mas isso vindo de um homem que tem sede de escrever, de ler, de blogar e ainda tem tempo para ser professor, não surpreende. Deves ter esquecido de tomar teu remédio hoje. :D Obrigada, querido. Pela orelha, pela mão, pelo ombro.
Angie, a culpa disso é toda tua, já te falei. Primeiro me fazendo blogar sem que eu soubesse que era isso, nos longínquos tempos dos mails de papel trazidos pelo carteiro, depois me apresentando o vício dos blogs, de ler as tuas deliciosas e geniais tiradas. Que bom que eu te achei há (nooooosa!) dezoito anos. Cruzes! Nosso projeto tomar chá à beira do Sena, cercada de gatos e vivendo de rendas (nem que sejam das calcinhas) está próximo! Hohoho.
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Ticcia,
É tudo verdade. Quando estiver publicado o "bichano", quero ver qual será o argumento.
Beijo grande.
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